Como analisar a dívida de uma empresa

Como analisar a dívida de uma empresa

DebtEu gosto de olhar 3 indicadores para analisar o endividamento de uma empresa na Bolsa:

  • Divida sobre o Patrimônio
  • Divida sobre o EBITDA
  • Índice Cobertura de Juros

Eu aplico o primeiro na primeira fase quando estou filtrando as empresas, os outros dois eu utilizo quando vou analisar em mais detalhes as empresa que escolhi para comprar, também vou acompanhando eles com o tempo para ver se mantiveram o padrão.

Divida sobre o patrimônio

A formula é bem simples pega-se a:

Dívida Bruta / Patrimônio Liquido.

Quanto menor esse número melhor, você pode usar como parâmetro empresas com índice abaixo de 0,5 ou seja 50% do patrimônio em dívidas, mas não é uma regra existe setores que possuem receita garantida o que permite as empresas se alavancarem um pouco mais, outra coisa a observar é que empresas tem empresas que não precisam de um grande patrimônio para funcionar como as de consumo que também acaba levantando um pouco o índice.

Se você me acompanha a mais tempo no Blog sabe que primeiro eu gosto de selecionar um setor, conforme fiz nesse ultimo artigo, depois eu pego os dados de cada empresa, nessa hora eu também analiso o quando do patrimônio equivale a divida e gosto de comparar com as outras empresas do setor, pra mim não tem regra é questão de bom senso.

Dívida sobre o EBITDA

A formula é:

Divida liquida / EBITDA (12 meses)

Aqui não tem regra o importante é acompanhar os planos que a empresa traçou, você pode ler nos balanços ou perguntar ao RI qual o nível de endividamento do EBITDA que a empresa tem como aceitável, cada empresa tem um planejamento para os investimentos e tem níveis de endividamentos estipulados. É muito importante guardar esse feedback deles para ir acompanhando com o tempo, se a direção não cumprir com o que prometeu é um bom motivo pra você pular fora do barco.

Índice Cobertura de Juros

A formula é:

Resultado Operacional (EBIT) / Despesa de juros

Cobertura de Juros é o índice que determina a facilidade com que uma empresa pode pagar as despesas com juros sobre a dívida pendente. Ben Graham determina o mínimo de 5 na cobertura de juros. Se a Cobertura de Juros é inferior a 2 a empresa está sobrecarregada por dívidas, mostra que a empresa está tendo dificuldade na geração de caixa para pagar seus compromissos, isso pode arrastar a empresa para um crescimento lento, criando assim uma bole de neve.

A relação abaixo de 1 significa que a empresa está tendo problemas de geração de fluxo de caixa suficientes para pagar suas despesas com juros, quando uma empresa mal consegue cobrir os seus custos de juros pode facilmente ir a falência.

Esse indicador pra mim é muito importante pois com ele conseguimos medir se a empresa está gerando caixa suficiente para bancar suas dívidas, é comum vermos por aí o pessoal comentar “nossa a dívida dessa empresa está alta” ou coisas do tipo, olhar só o montante da dívida não quer dizer absolutamente nada tem é que saber se essa dívida pode ser paga com facilidade pela geração de caixa da empresa e esse indicador nos ajuda a entender isso.

Exemplo pratico

Depois da teoria vamos ver como pegar esses dados na pratica. Primeiro precisamos levantar os dados as informações que precisamos todas podem ser pegas no balanço das empresas:

Vou pegar duas empresas a primeira é a Lojas Americanas e segunda a Petrobras, vou pegar o balanço de 2013 porque o de 2014 ainda não fechou.

Lojas americanas

  • EBITDA – 1.846
  • Depreciação e amortização – 273
  • EBIT – 1.573
  • Despesas juros – 163
  • Dívida bruta – 7.693
  • Dívida líquida – 1.960
  • Patrimônio liquido – 1.488

Com os dados em mãos vamos fazer os cálculos e acharmos os indicadores:

Índices de endividamento
Indicador Valor
Dívida sobre patrimônio 5,17
Dívida sobre o EBITDA 1,06
Índice cobertura de juros 9,65

Como podemos observar no quadro acima, apesar de a empresa possuir num primeiro momento um índice de Div/PL superior ao máximo recomendado pelo mercado que é 0,50 o seu ICR (Índice Cobertura de Juros) está num nível saudável pela sua geração de caixa. Se você considerasse apenas um indicador iria acabar descartando uma empresa que aparentemente pareceria ruim mas não o é, não estou dizendo que a LAME é uma boa empresa porque precisamos de analisar outros indicadores para saber se é uma boa empresa, mas para efeito didático ela basta.

Petrobras

  • EBITDA – 62.967
  • Depreciação e amortização – 28.467
  • EBIT – 34.500
  • Despesas juros – 18.613
  • Dívida bruta – 267.820
  • Dívida líquida – 221.549
  • Patrimônio liquido – 349.334

Com os dados em mãos vamos fazer os cálculos e acharmos os indicadores:

Índices de endividamento
Indicador Valor
Dívida sobre patrimônio 0,77
Dívida sobre o EBITDA 3,52
Índice cobertura de juros 1,85

Petrobras possui uma relação de dívida por patrimônio até relativamente aceitável, porém quando pegamos o Índice Cobertura de Juros a coisa complica, conforme disse Ben Graham empresas com índices abaixo de 2 enfrentarão sérios problemas para manter o crescimento, isso porque os juros passam a corroer boa parte dos lucros. O endividamento é o grande calcanhar de Aquiles para a Petrobras, pior de tudo que esse crescimento das dívidas pode ser previsto bem antes de acontecer, pois a empresa tem sérios problemas como eu relatei neste post esse endividamento nada mais é que um dos efeitos colaterais do que citei no post anterior.

Uma empresa cíclica com um Índice abaixo de 2 é muito ruim, pior de tudo é saber que estamos analisando dados de 2013 imagina se pegarmos os dados mais recentes de 2014 a coisa certamente vai estar bem pior. Vale ressaltar aquele investidor que acompanha o endividamento da empresa de perto não seria pego de surpresa com o que o mercado vem fazendo nos dias atuais com a Petrobras.

Conclusão

O que eu sempre falo por aqui em combinar os indicadores, não use nada isoladamente, esses dois exemplos mostram isso de forma clássica, olhando um indicador isoladamente entenderíamos que o nível de endividamento a Petrobras estaria mais confortável que o da Lojas Americanas, mas quando combinamos os indicadores a coisa muda completamente, a LAME está num cenário muito mais confortável que a PETR.

A empresa pode ter uma dívida grande desde que ela possua um fluxo de caixa forte, a empresa pode pegar empréstimos para alavancar seu crescimento, mas esses investimentos precisam gerar caixa no futuro, senão os juros começam a comer o lucro por isso é muito importante acompanharmos o Índice Cobertura de Juros.

Questione o RI da empresa sobre os planos de endividamento e investimentos e acompanhe isso de perto, geralmente os primeiros sinais de problemas numa empresa podem ser constatados no acompanhamento do seu endividamento, por isso olhe essa informação com bastante carinho e evita surpresas.

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Porque não compro Petrobras – PETR4

Porque não compro Petrobras – PETR4

petro plataformaEu vejo muitas pessoas dizendo porque não gostam de investir na Petrobras na maioria dos casos se resume a ela ser uma estatal, casos de corrupção, endividamento e tem alguns que nem sabem porque não gostam da empresa, mas enfim eu acho que antes disso tudo devemos ver o básico primeiro, se uma empresa não consegue nem gerar lucro e ser competitiva no mercado em que atua o resto se torna secundário, olhando para uma petrolífera o que devemos analisar nesse caso é pelo menos o break-even dos seus barris.

Empresas de commodities não tem muito mistério para analisar, é basicamente olhar o preço da commoditie e cruzar com o valor de custo que a empresa tem para extrair o produto.

No caso da Petro é acompanhar o preço do barril de petróleo que está atualmente em torno de U$ 69 (em 7.12.14 quando escrevi esse artigo) e caindo a cada dia.

Acontece que o governo Lula na época que “popularizou” o pré-sal disse aos investidores que conseguiria extrair petróleo ao custo de U$40 a U$45 o barril, depois que começou as operações perceberam que não era nada disso e que o preço do petróleo para extração no pré-sal seria viável a preços superiores a U$ 70/barril, todo caso alguns analistas afirmam que o ideal seria U$ 100 dólares para tornar a operação da Petrobras viável, isso por conta da péssima infraestrutura e tecnologia que possuímos. Enfim vamos acreditar no governo e imaginar que a nossa infraestrutura de portos e transporte é coisa de primeiro mundo, diante disso teremos o seguinte cenário:

Breakeven do barril de petróleo
Player Preço mínimo US$
Petrobras $ 70
Russos $ 40
Golfo México $ 40
Árabes U$ 10

Olhando o quadro acima nem se o Brasil tivesse uma infraestrutura decente poderia ser competitivo, pois os Russos e o Golfo do Mexico (Americanos) tem o preço de extração bem abaixo do barril brasileiro, sendo que a vantagem dos americanos é o custo de extração que está na casa de U$40-U$80 e os Russos na casa de U$40-U$100.

Qualquer um que tenha olhos de ver, consegue perceber que o nosso grande problema está na infraestrutura. Mesmo no melhor dos cenários você ainda teria o Golfo do Mexico com $40 e os árabes com U$ 10 ainda deve se levar em conta que o Petróleo das áreas árabes é muito superior a esses não convencionais extraídos  aqui no Pré-Sal e no Golfo do Mexico.

Agora vamos lá os árabes com o preço baixíssimo de extração podem a qualquer momento ditar as regras, mas qualquer um que pesquisar um pouco sabe que o petróleo deles está previsto pra findar em 2050, mas até lá eles podem quebrar qualquer um no mercado, por exemplo mais recentemente a OPEP negou o pedido de redução da produção de petróleo árabe, o que joga o preço do barril ainda mais pra baixo, ou seja o rally ladeira abaixo deve continuar e não se sabe até onde vai. Enfim pega-se empresas como Saudi Aramco (Arábia Saudita) ou National Iranian OIl Co. (Iran) os caras tem a faca e o queijo nas mãos.

Olhando o cenário americano, pela primeira vez em toda a sua história o EUA se tornou auto suficiente em petróleo (através do petróleo de xisto) e estimativa que a partir de 2015 a 2020 ele começa a se tornar exportador (só aguardando os prováveis lucros das minhas Chevron), o mercado americano hoje corresponde a 25% de todo o consumo de petróleo do mundo, os árabes com um temor dessa auto-suficiência pretendem jogar os preços do barril para níveis abaixo de US $ 60 que é o ponto de breakeven dos “shale oil” americano na tentativa de conter essa expansão americana.

Petrobras pra mim esses casos de corrupção, interferência do governo e endividamento é importante mas seria secundário nessa analise, primeiro ela tem que fazer o dever de casa e reduzir esse break-even e eu não vejo futuro tão promissor para ela a menos que consiga desenvolver alguma tecnologia que reduza o custo de extração no pré-sal para níveis de pelo menos próximos aos Golfo do México e dos Russos e o governo invista pesado na melhoria da infraestrutura do país.